Páginas

Piedad por las palabras

Piedad por las palabras penitentes
                            [que mueren contra la almohada
las palabras caídas como piedra

sen el montón que cuenta los pecados
las palabras ahogadas como recién nacido
del cual la madre se avergüenza
las
palabras mendigas que jamás han tenido un vestido decente
para salir al domingo de la vida.


Y aún por la palabra amordazada
que un traje de cemento hundió en aguas oscuras
la palabra final sin sílabas y sin destinatario.




PIEDADE COM AS PALAVRAS
                                                                                                                     
                                                                                                                                                            Tradução: Antonio Miranda

Piedade com as palavras penitentes
                                 [que morrem sobre a almofada
as palavras caídas como pedras
no montão que conta os pecados
as palavras afogadas como recém-nascido
de quem a mãe se envergonha
as palavras mendigas que jamais tiveram um vestido decente
para sair no domingo da vida


E também pela palavra amordaçada
que um vestido de cimento afundou nas águas escuras
a palavra final sem sílabas e sem destinatário



Josefina Plá, Invención de la muerte (1969)

Inverno





Como se o tempo não corresse, 
não se acumulasse dentro do frio, 
não fosse volátil sombra que sobrevive - eu te amei. 

E chorava, suspirava, emudecia
quando recordava o teu nome empobrecido
na memória que nunca tive. 

Na triste e amarga voz que sustentava, 
todas as canções tinham se acabado
pela lutuosa secura da garganta.  

A vida foi-se tornando qualquer coisa 
menor que uma lágrima perdida, 
mais frágil que um momento - 
e tão vazia de significado, tão vazia, 
que nem a morte seria maior. 


Clebson Moura Leal  


Trecho de poema

Frederico García Lorca (1898 — 1936), retirado do poema "Si mis manos pudieran deshojar". 


"Eu pronuncio teu nome, 
Nesta noite escura, 
E teu nome me soa
Mais distante que nunca."

"Lost Song" é uma composição de Ólafur Arnalds, multi-instrumentalista nascido na Islândia. Sua overdose de melancolia mistura piano, violoncelo, violino e som ambiente. Esta música vem do álbum Found Songs.









"Um dia tu vais compreender que não existe nenhuma pessoa completamente má, nenhuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos nós somos apenas humanos. E sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí, sim, todos te virarão as costas e te acharão mau [...]"


Caio Fernando Abreu, Limite Branco

Ser feliz é difícil?



Para Thierry Pang





Às vezes, sim. Todos nós somos uma espécie de caixinha, e cada dia vão sendo colocadas pequenas lembranças. Algumas recordações ruins perduram dentro do nosso peito por anos e anos. E então, vamos entristecendo. Não podemos nos livrar, não conseguimos a benção que é o esquecimento (e posteriormente o perdão). O rancor antigo mostra-nos um passado que não passou, e tudo ecoa infinitamente na tristeza. 

Mas nós, humanos, limitamos a nós mesmos. Guardamos palavras duras enquanto os elogios são esquecidos; vivemos de chorar por aqueles que nem ao menos se importam com nossas lágrimas; alimentamos intrigas vazias, vinganças patéticas, mágoas infundadas. Poderíamos ser muito mais se pudéssemos ver o real valor da existência. Não dá para voltar atrás, os ponteiros do relógio não retrocedem, estamos envelhecendo a cada momento. E tudo que deixamos de fazer é uma triste perda de tempo, uma flor que não se deixou desabrochar para que outros conhecessem o seu perfume. 


Muitas pessoas morrem sem ter conhecido a verdadeira felicidade. E ela não requer nada fora de comum: é tão simples que a complicamos. Temos o costume de sonhar com alguém que nos complete (quando nós mesmo deveríamos ser suficientes), o emprego que pague melhor (enquanto há pessoas que não tem o que comer), uma casa maior, viagens, falar várias línguas. Aprendi há pouco tempo a ver a vida de outra maneira: a felicidade está perto de nós, dentro de nós, ao redor de nós - talvez nos espreite como uma criança que brinca de esconde-esconde.



Clebson Moura Leal

Festa


tinha estendido minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o itinerário
até meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E tinha bebido licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

_____

FIESTA

he despleado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujéel itinerario
hacia mi lugar al viento.
Los que llegan no me encuentran. 
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para transmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacíos.



Alejandra Pizarnik