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"Lost Song" é uma composição de Ólafur Arnalds, multi-instrumentalista nascido na Islândia. Sua overdose de melancolia mistura piano, violoncelo, violino e som ambiente. Esta música vem do álbum Found Songs.









"Um dia tu vais compreender que não existe nenhuma pessoa completamente má, nenhuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos nós somos apenas humanos. E sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí, sim, todos te virarão as costas e te acharão mau [...]"


Caio Fernando Abreu, Limite Branco

Ser feliz é difícil?



Para Thierry Pang





Às vezes, sim. Todos nós somos uma espécie de caixinha, e cada dia vão sendo colocadas pequenas lembranças. Algumas recordações ruins perduram dentro do nosso peito por anos e anos. E então, vamos entristecendo. Não podemos nos livrar, não conseguimos a benção que é o esquecimento (e posteriormente o perdão). O rancor antigo mostra-nos um passado que não passou, e tudo ecoa infinitamente na tristeza. 

Mas nós, humanos, limitamos a nós mesmos. Guardamos palavras duras enquanto os elogios são esquecidos; vivemos de chorar por aqueles que nem ao menos se importam com nossas lágrimas; alimentamos intrigas vazias, vinganças patéticas, mágoas infundadas. Poderíamos ser muito mais se pudéssemos ver o real valor da existência. Não dá para voltar atrás, os ponteiros do relógio não retrocedem, estamos envelhecendo a cada momento. E tudo que deixamos de fazer é uma triste perda de tempo, uma flor que não se deixou desabrochar para que outros conhecessem o seu perfume. 


Muitas pessoas morrem sem ter conhecido a verdadeira felicidade. E ela não requer nada fora de comum: é tão simples que a complicamos. Temos o costume de sonhar com alguém que nos complete (quando nós mesmo deveríamos ser suficientes), o emprego que pague melhor (enquanto há pessoas que não tem o que comer), uma casa maior, viagens, falar várias línguas. Aprendi há pouco tempo a ver a vida de outra maneira: a felicidade está perto de nós, dentro de nós, ao redor de nós - talvez nos espreite como uma criança que brinca de esconde-esconde.



Clebson Moura Leal

Festa


tinha estendido minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o itinerário
até meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E tinha bebido licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

_____

FIESTA

he despleado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujéel itinerario
hacia mi lugar al viento.
Los que llegan no me encuentran. 
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para transmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacíos.



Alejandra Pizarnik

No lugar de um epílogo

Anna Akhmátova, poetisa russa

E lá, onde os sonhos formavam-se
para nós dois - sonhos não muito diferentes
iam ficando guardados.
Vimos o mesmo sonho, e havia força nele,
como a chegada da primavera.



Anna Akhmátova
Tradução: Lauro Machado Coelho

Saudades de mim


Hoje mesmo estava lendo alguns livros infantis, um dos quais li quando tinha apenas onze anos. E com triste saudade recordei a mim mesmo. Ah, todas aquelas páginas com ilustrações tão bonitas, as histórias que levavam a minha imaginação longe, onde talvez a tenha deixado - porque não a encontro mais... 

Sinto que fiquei no passado. A textura do papel, o aspecto do livro, as imagens, as palavras daqueles livros não envelheceram de forma tão brusca. Mas quanto a mim, sim. Não tenho nada mais da infância, a não ser algumas lembranças que retornam inutilmente - apenas para que que eu tenha a noção da fugacidade da vida. Reler aquelas palavras que havia esquecido é tão triste quanto, de súbito, não reconhecer o próprio rosto. 

Foi como saber que tudo acabou. Faz tanto tempo que sequer saberia como me comunicar com uma criança. Esqueci o quão simples deveria ser a vida, leve, aérea, liberta. Tenho vontade de escrever o livro infantil mais lindo do mundo, mas não tenho mais a mesma imaginação de antigamente. Não consigo ser o mesmo, estou preso nesta condição que me é estranha. A qual renego com todas as forças. Contudo, nenhuma palavra é escrita. E deito-me exausto, em uma tarde ensolarada; durmo como aquele menino que não sou mais. 



Clebson Moura Leal

A leveza da música


Escuridão



Aqui neste casa vazia, 
o vento canta o frio nas frestas das janelas. 
Ouve-se longe as tempestades destrutivas. 


Em minha humildade tristonha, 
apago a frágil luz da lamparina. 
E mergulho meu rosto no escuro
para não recordar o tempo que passou
entre mim e esperar-te. 


Clebson Moura Leal

Violência


As folhas levemente se desprendendo com o vento,
os jardins que secaram em sonora monotonia,
as vidraças que perderam o brilho de olhares,
as palavras que se tornaram pedras dentro da garganta


- ah, e por culpa do peso delas despedacei-me na queda,
quando tentei, de súbito, voar.




Clebson Moura Leal


A leveza da música


Katherine Jenkins, que esteve no Brasil no mês passado, cantando "Rejoice", do album de mesmo nome (lançado em 2007).

Caminho pelo lado da rebentação das ondas




Caminho pelo lado da rebentação das ondas ―
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
e o labirinto das algas ainda agora oferecidas

à praia. Sinto-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:

agora as marés dobram novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar

ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes.

Maria do Rosário Pedreiras

"Querido diário,



... hoje alguma coisa está doendo tanto em mim. Sinto a falta de uma pessoa que gostaria que estivesse do meu lado para sempre. E não tenho coragem de dizer, porque sei que isso de nada adiantaria. Algo está errado comigo, estou sentindo tantas saudades dentro de mim. E sei que tudo é impossível, oh, não sei mais o que fazer comigo. Sou imprestável, não tenho serventia, sou um objeto quebrado. Quem poderia amar alguém assim? Ninguém. Há horas vazias em que a ausência é tão amarga e infinita! Não quero mais o que sou: quero que me levem para longe e para sempre. Tenho vergonha do que me tornei. E, se pudesse conseguir tudo no mundo, a única coisa que pediria seria para ser amado. Ou então, para que o esquecimento pudesse libertar-me. Estou tão exausto, tão fadigado! Gostaria de dormir e não acordar mais: meu coração não consegue suportar o sofrimento de amar."






Clebson Moura Leal

Como explicaria a minha vida?




...um pouco vazia, dolorosa, amarga, árdua. Mas também, em alguns momentos, leve, aérea, delicada, tão repleta de sonhos e esperanças! Não gostaria de ter outra vida, ou ser outra pessoa - apenas gostaria de ser um pouco melhor. Porque estou condenado a ser apenas isto: errado, incompleto, sofrido; de uma humildade pisada, uma inocência saudosa, uma dureza incomum. Ah, possuo uma solidão sobrehumana, algo desconhecido, que resume a minha existência. Mas, às vezes, dói. Outras, liberta. E quase sempre não sei o que fazer de mim -  estrangeiro no mundo, perdido nas tempestades, pelas multidões sufocado.



Clebson Moura Leal

A leveza da música


"Opus 28", do pianista contemporâneo americano Dustin O'Halloran. 

Aninha e suas pedras

Tradução: Clebson Moura Leal
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

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Aninha y sus piedras

No te dejes destruir...
Juntando nuevas piedras.
y contruyendo nuevos poemas.
Recrea tu vida, siempre, siempre.
Remueve tu vida y planta rosales y has dulces. Recomienza.
Has de tu vida mesquina
un poema.
Y vivirás en el corazón de los jóvenes
y en la memoria de las generaciones que han de venir
Esta fuente es para el uso de todos los sedientos.
Toma tu parte.
Ven a estas páginas
y no dificultes su uso
a los que tienen sed.

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Aninha and her stones
Don't be destroyed ...
Raking new stones
and building new poems.
Recreate your life, always, always.
Remove stones and plant roses and make candies. Restart.
Do your niggard life mean
a poem.
And you will live in the hearts of young
and in memory of the generations to come.
This unit is for use by all the thirsty.
Take your part.
Come to these pages
and not use barriers
to those who thirst.

Las grandes palabras


aún no es ahora
ahora es nunca
aún no es ahora
ahora y siempre
es nunca

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As grandes palavras
ainda não é agora
agora é nunca
ainda não é agora
agora e sempre
é nunca

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The big words
still not is now
now is never
still not is now
now and always
is never 

Alejandra Pizarnik

Desnudo día


En el paisaje nuevo
En el paisaje nuevo en que estarás conmigo
reposará la tarde como una flor caída.

Nos habremos deseado
tanto, que el beso habrá muerto.

Yo lo veré en tus ojos, maduros de otra sombra.
Ojos de un valle ausente. Ojos con otra luna.

Entre los dos corazones
llorará tu voz
antigua.

...Una tarde peinada con una raya oscura.
Tú tendrás la mitad más dulce de la vida.

Las camelias de tu boca
morirán en otro tiempo.


...Y aquella tarde mía, ya no será la tuya.
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Nesta paisagem nova, 

nesta paisagem nova em que estarás comigo
repousará a tarde como uma flor caída.

Nós haveremos desejado
tanto, que o beijo estará morto.

Eu verei em teus olhos, maduros de outra sombra.
Olhos de um vale ausente. Olhos com outra lua.

Entre os dois corações
chorará tua voz
antiga.

...Uma tarde penteada com uma risca obscura.
Terás tu a metade mais doce da vida.

As camélias de tua boca
morrerão em outro tempo.


...E aquela tarde minha, já não será a tua.
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In this new landscape,
this new landscape that will be with me
rest in the afternoon as a fading flower.

We shall yearned so much,
therefore the kiss will be dead.

I'll see in your eyes, ripe for another shade.
Eyes of a valley away. Eyes with a other moon.

Between the two hearts
will cry your voice
old.

... One afternoon brushed with a dark stripe.
You have the half more sweeter of the life.

The camellias of your mouth
will die in another time.

...And that afternoon mine, don't will be yours. 




Josefina Plá
Tradução: Clebson Moura Leal

La carencia

Tradução: Clebson Moura Leal
Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.

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Eu não sei de pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

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I don't know the birds,
I don't know the history of the fire.
But I think my loneliness should have wings.



Alejandra Pizarnik, Las aventuras perdidas

Monólogo


Clebson Moura Leal copyright © 2011 - ALL THE RIGHTS RESERVED


Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? - Nunca.

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.

De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.



Cecília Meireles

Não soube dizer adeus








    Revejo-te em minha memória, nitidamente. E acabaram as lágrimas, secaram com a passagem do vento. Mas dentro de mim continua algo despedaçado, delicadamente encoberto de escuridão: a minha tristeza por não saber onde estarás, sem poder ser chorada, eternamente sufocada dentro do meu peito. E não há grito, não há coragem para enfrentar os vendavais, não há o que ser salvo.

 Nem a mim, quero salvar. Quero mesmo que as tempestades levem as minhas palavras, a minha voz, as minhas memórias, a minha vida. Entrego-me na mais dolorosa abdicação. Conheço o vento e toda a violência da morte - porém nada temo. Enquanto o mundo chega ao fim, chamo o teu nome sem esperança, rogo-te que venhas, que voltes, que regresses! Somente segurar a tua mão já seria terno o suficiente para que eu fechasse os meus olhos. Os mesmos olhos que fechei quando foste embora, apenas para não ver que levarias  então tudo de mim.
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         I can see you in my mind, clearly. And eventually the tears have dried up with the passage of wind. But something inside me is still in pieces, delicately shrouded in darkness: my sadness for not knowing where you will be, and can not be mourned, foreversmothered in my breast. And there is no cry, no courage to facethe storm, there is nothing to be saved.

        Not me, I want to save. I really want that storms take my words,my voice, my memories, my life. Give me the most painfulabdication. I know the wind and all the violence of death - but I fear nothing. As the world comes to an end, I call your namewithout hope, I pray you to come, they come back, that rules! Just hold your hand it would be tender enough that I closed my eyes. The same eyes that closed when you went away, only to see then you would take all of me.

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Clebson Moura Leal

Pausa



"Não sei se quero descansar por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir."

Clarice Lispector

A minha solidão




"Eu comecei a enumerai nos dedos quem poderia sentir a minha falta: sobraram dedos. Todos estes que estou olhando agora." 




Caio Fernando Abreu, Os Dragões Não Conhecem o Paraíso 

Oração

Clebson Moura Leal copyright © 2011 - ALL THE RIGHTS RESERVED


            Deus meu eu vos espero, deus, vinde a mim, deus, brotai no meu peito, eu não sou nada, e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas, e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura, deus, vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e deus, porque não existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti? deus, vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece, me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco, e o que me resta para viver, no entanto, continuará intocado e inútil, porque não te apiedas de mim, que não sou nada? dai-me o que preciso, deus, dai-me o que preciso, e que não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, e a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo por vós, e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós...





Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem

Tristeza



Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza, 
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes de meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrimas de olho escondido. 


(Ali, no canto apagado da sala, 
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)


E o resto é mesmo tristeza. 


Ivan Junqueira, Poemas Reunidos

Las puertas

...Un cerrarse de puertas,
a derecha e izquierda;
un cerrarse de puertas silenciosas,
siempre a destiempo,
siempre un poco antes
o un momento demasiado tarde;
hasta que solo queda abierta una,
la única puntual,
la única oscura,
la única sin paisaje y sin mirada.

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As portas


...Um fechar-se de portas, 
à direita e esquerda;
um fechar-se de portas silenciosas,
sempre fora do tempo, 
sempre um pouco antes, 
ou um momento demasiado tarde;
até que apenas permanece aberta uma, 
a única pontual, 
a única obscura, 
a única sem paisagem e sem olhar. 
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The doors


... A close doors, 
right and left;
a close door silent,
always out of time, 
always a little earlier, 
or a moment too late;
until only one remains open, 
the only punctual, 
the only obscure, 
only without the landscape and without looking.


Josefina Plá, poeta paraguaia 
Tradução: Clebson Moura Leal

Elegia íntima




Minha mãe chorando no fundo da noite

rachou o silêncio do quarto adormecido.
Meu pai olhava o escuro e não dizia nada.
Um relógio preto gotejava barulho.

Lá fora o vento lambia as espáduas do céu.

Minha mãe chorando no fundo da noite
                                                         apunhalou o sono de Deus.



Ivan Junqueira, 
Poemas Reunidos

A leveza da música



"A Morte do Cisne", interpretada pela belíssima Ghislaine Thesmar, faz parte da peça escrita por Camille Saint-Saëns (Le Carnaval des Animaux - O Carnaval dos Animais) datada de 1886 - e faz alusão aos últimos momentos agonizantes antes da morte.

Cantiga que todos cantarão

Clebson Moura Leal copyright © 2011 - ALL THE RIGHTS RESERVED

Chover não choveu. Nem as ondas podiam ter vindo até dentro das minhas mãos: só se os meus olhos choraram.

Mas então estive aqui muito tempo, e passaram-se em mim grandes acontecimentos, tristes e inevitáveis guerras...

Parece que estive desejando alguma coisa longamente... O quê? E estou desejando ainda... - um pouco de sol sobre minha vida, qualquer coisa luminosa, qualquer coisa... Ai de mim.

Não sei mais.

Cecília Meireles, in Episódio Humano

Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Meu destino



Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...


Cora Coralina

A leveza da música


"Ombra ma fui" é uma ária da ópera de Haendel chamada "Xerxes", interpretada por Cecilia Bartoli (essa versão é proveniente de seu albúm Sacrificium).

Pardalzinho







O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!



Manuel Banderia

Não partas já

"The Piano", 1993, escrito e dirigido por Jane Campion

Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas

quando a manhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.

E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.


Maria do Rosário Pedreiras

Arte Poética

Nada es más claro para mí
Que el misterio de la muerte
Ni nada más oscuro
Que la luz misma del sol
La sombra brota de mi pluma
Y alcanza el cielo entero
Dama de traje infinito
Baila a solas con la luz
Siempre detrás de las cosas
Siempre a la espalda de todo
Con su gran cola vacía
Y su llamarada
Semejante a este poema
Que apenas logro escribir
Y ya no es nada.

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Tradução: Clebson Moura Leal
Nada é mais claro para mim
Que o mistério da morte
Nem nada mais obscuro
Que a luz própria do sol
Uma sombra nasce de minha pena
E alcança o céu inteiro
Dama de traje infinito
Dança sozinha com a luz
Sempre detrás das coisas
Sempre às costas de tudo
Com sua grande fila vazia
E seu apagamento
Semelhante a este poema
Que apenas minto escrever
E que não é nada.


Jorge Eduardo Eielson, poeta peruano

A leveza da música



"Canon em D maior" do compositor alemão, de estilo barroco, Johann Pachelbel.


Espera





E se vieres tarde no tempo,
tarde para que minha boca
cante aos teus ouvidos o vento?

E se chegares dentre o silêncio,
com as minhas pupilas mortas
sobre uma sombra que não venço?

E se trouxeres outras esperanças
para que cessem as lágrimas,
sendo que nada mais se alcança?

Mas não chegas, não regressas:
então tudo permanece despedaçado,
como que abandonado às pressas,
e uma triste e vaga penumbra
cala todas as promessas.


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And if you come later in time,
late for my mouth
sing the wind in your ears?

And if you get out of the silence,
with my pupils killed
on a shadow that do not win?

And if you bring other hopes
to cease the tears,
that nothing is being achieved?

But you don't come, you don't return:
then everything is still broken,
as if hastily abandoned,
and a sad and vague penumbra
shut all the promises.


Clebson Moura Leal

Ah, as viagens

 
     Alegre agitação de véspera de partidas. Com crias da casa para carregar as malas. E um pai para pagar a passagem. Agora as viagens são sozinhas, anônimas, quase furtivas. E ir de um lugar para outro - olha só a grande novidade! - é o mesmo que mudares de posição um velho móvel no quarto de sempre...



Mario Quintana, A Vaca e o Hipogrifo 

A Anunciação

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci. 
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim... 


Vinicius de Moraes, Para Viver um Grande Amor

Bilhete



Para conseguir ler perfeitamente, por favor, clique na imagem.

Canção do Amor-Perfeito


O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras,
deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas,
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.


Cecília Meireles

The Munich Mannequins

Perfection is terrible, it cannot have children.
Cold as snow breath, it tamps the womb

Where the yew trees blow like hydras,
The tree of life and the tree of life

Unloosing their moons, month after month, to no purpose.
The blood flood is the flood of love,

The absolute sacrifice.
It means: no more idols but me,

Me and you.
So, in their sulfur loveliness, in their smiles

These mannequins lean tonight
In Munich, morgue between Paris and Rome,

Naked and bald in their furs,
Orange lollies on silver sticks,

Intolerable, without mind.
The snow drops its pieces of darkness,

Nobody's about. In the hotels
Hands will be opening doors and setting

Down shoes for a polish of carbon
Into which broad toes will go tomorrow.

O the domesticity of these windows,
The baby lace, the green-leaved confectionery,

 The thick Germans slumbering in their bottomless Stolz.
And the black phones on hooks

Glittering
Glittering and digesting


Voicelessness. The snow has no voice.


(1932 - 1963)


Sylvia Plath


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Os Manequins de Munique

A perfeição é terrível, não gera filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos sopram como serpentes,
A árvore da vida e a árvore da vida

Desprendendo as suas luas, mês atrás de mês, sem nenhum propósito.
O jacto do sangue é o jacto do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, excepto eu

Eu e tu.
Assim, com a sua graça sulfúrica, nos seus sorrisos

Esses manequins se encostam esta noite
Em Munique, morgue entre Roma e Paris,

Nus e carecas vestidos com os seus casacos de pele,
Chupas-chupas de laranja com pau de prata

Intoleráveis, sem cabeça.
A neve deixa cair os seus pedaços de escuridão.

Ninguém perto. Nos hotéis
As mãos abrirão portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão que engraxa
Com os seus dedos largos entrando amanhã.

Ah, a domesticidade dessas janelas,
As roupas de bebé, a confecção de folhas verdes,

Os espessos alemães dormindo com o seu desprezo inacabável.
E telefones pretos nos ganchos

Cintilando
Cintilando e digerindo


A mudez. A neve não tem voz.

(tradução de Pedro Calouste)

A leveza da música




"Un Piano Sur La Mer", por André Gagnon

Inutilidades minhas




"Vivo entregando todo o meu amor nas mãos de pessoas que ao menos me dariam um sorriso."

Clebson Moura Leal

Desconsolo











Sei que teus olhos já se fecharam, que é tarde demais para qualquer outra tentativa, que minhas palavras foram perdidas pelas areias: mas só não sei como poderia dizer tudo isso a mim. Nada dói tanto quanto "nunca mais". Por isso procuro outros nomes para pronunciar, guardando o que fora dito nas despedidas como lembranças que não sufocassem. Mas tudo é inútil, tudo, tudo, tudo: porque não importa em que tempo, em quantas vidas minha alma ressurja, em quantas lágrimas meus olhos se desfizerem - jamais te verei novamente. E saber que estás longe, sem poder beijar os teus lábios, é o mesmo que sobreviver infinitas vezes apenas para continuar morrendo. 


Clebson Moura Leal

O que verdadeiramente sou

Gabriela Mistral


"Soy una alma desnuda en estos versos,
alma desnuda que angustiada y sola
va dejando sus pétalos dispersos."


"Sou uma alma nua nestes versos,
alma nua que angustiada e sozinha
vai deixando suas pétalas dispersas."


Tradução: Clebson Moura Leal


A leveza da música







A suave barcarola "Au lac de Wallenstadt", de Franz Liszt (1811 - 1886)

Delicadeza



               Ah! como eu queria ir empurrando
               a tua lágrima
              - com a boca delicada -
              para que quando ela morresse eu conseguisse


              encontrar os teus lábios...



Clebson Moura Leal, anotação em uma agenda




Ninguém me venha dar vida


Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis.

Cecília Meireles