Páginas

Insuficiência




   Não mentirei: sempre tive o desejo de ir conforme os teus passos.
   Mas tu és apenas distância a que o sonho renuncia!
   E bem sei que com o meu andar,
   ‑ os cabelos na longa ventania ‑
   com os meus pés, as minhas mãos,
   somente eu nunca te alcançaria...

Clebson Moura Leal


A leveza da música





Sarah Brightman (e o pequeno Ben De'ath) cantando "Pie Jesu".

A jaula

Alejandra Pizarnik
Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.

Perto do Coração Selvagem



     Ah, piedade é o que eu sinto então. Piedade é a minha forma de amor. De ódio e de comunicação. É o que me sustenta contra o mundo, assim como alguém vive pelo desejo, outro pelo medo. Piedade das coisas que acontecem sem que eu saiba. Mas estou cansada, agora tão agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuado tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono.



Clarice Lispector

Verdades únicas


"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade."

Carlos Drummond de Andrade

Desespero



Onde estiveste esse tempo sem fim?
Chamava tanto por ti, tanto, tanto!
Foi dizendo o teu nome que conquistei o vento assim...

Rasguei bilhetes antigos, cartas não datadas,
e o mesmo vento secou a renúncia do pranto,
levando cada fragmento das tuas antigas palavras.

E agora, esta doçura que do lábio não pronuncia,
esta demora na sombra da pálpebra desencantada...
Ai!, se eu soubesse que nunca me ouvirias!

Quanta ausência ficou entre cerrados cílios,
quanta delicadeza restou inútil e guardada,
quantos suspiros morreram sem auxílio...

E meus olhos, meus olhos cansados de vigílias.
Chorava tanto pelo teu nome, tanto, tanto...
Ai, mas se eu soubesse que nunca virias!

Estão já tuas pupilas apagadas, sim,
tuas mãos desmerecidas de encantos...
E antigos aromas de aragem e jasmim
perdem-se: como se vivesses, no entanto;
como se vivesses e não houvesse o teu fim.



Clebson Moura Leal

A leveza da música



Esta é uma música antiga, vinda de Taiwan, chamada "Green Island" ("Lüdao Xiaoyequ" composta por Yao Di and Chen Chang-shou), interpretada pela cantora americana, mas de origem tailandesa, Vienna Teng. 

Angústia


Por amar-te, não te desejo este desamparo e esta penumbra,
ainda que seja a tua ausência,
- eu te digo! -
unicamente a tua ausência a causa da fraqueza dos meus braços.

Que dolorosa angústia, a de esperar-te...
e de saber que é em vão.


Clebson Moura Leal

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente

Amar!Amar!E não amar ninguém!

Florbela Espanca
Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...




Desejos guardados




Vontade de fechar os olhos e desenhar as linhas do teu rosto. E sofrer, sofrer a tua ausência, desejando apenas a tua mão para segurar dentre as minhas. Suspirar mergulhado no sono o quanto sinto a tua falta - infinitamente, até que a noite se consuma. Deixar que caia uma lágrima pequenina, enquanto o tempo vai apagando a minha memória: e estiveres dentre as distâncias do mundo. Desejo de que possamos dormir abraçados, com uma canção murmurada muito longe, além do vento... revelando asas de penumbra para nossas pálpebras exaustas. E se abandonares-me, em teus caminhos, que meus lábios apenas digam - vagamente antigos e sem significado! - o teu nome, o teu nome, o teu nome. Até que retornes para nunca mais me deixares.  

21.fereveiro.2011
Clebson Moura Leal

A leveza da música


"Flower Duet" (da ópera Lakmé, composta por Léo Delibes), interpretada por Natalie Dessay.

Como seria o dia perfeito?


    Um dia com muito vento,e nuvens claras... E que eu possa assistir da janela o dia acabando em cada minuto que termina. E haja um livro de poemas a ser terminado, e uma xícara de chá esfriando docemente. Ah, e que não exista ninguém perto de mim. Quero a solidão absoluta. Não consigo ser feliz no meio dos outros, porque as pessoas me machucam. Sozinho não tenho motivos para chorar. Nada desejo mais: exceto estar só comigo mesmo, com meus livros, com minhas nuvens, minhas memórias antigas, meus silêncios incomunicáveis.

Clebson Moura Leal

Dorme, meu amor


Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega ― o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor ―


a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. mas nada temas; as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me ― eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos


agora e sossega ― a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei no caminho. Por isso, dorme,


meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos ― a noite é um poema

que conheço de cor e vou contar-to até adormeceres.


Maria do Rosário Pedreiras




A leveza da música



Suíte nº1 - Prelúdio - Johann Sebastian Bach (1685 - 1750)

Solidão




É que tem horas vazias em que preciso tanto, tanto pedir socorro. Mas não há ninguém. E a voz é precária e frágil. Ando a procura de mim, não quero mais entregar a minha felicidade na esperança de encontrar alguma companhia. E as pessoas... Ah, ninguém pode ocupar esta ausência que existe desde que os tempos se formaram. Sei que mesmo se tivesse alguém neste momento a quem pudesse segurar a mão - ainda assim estaria sozinho. Em dias solitários, sussurro a frase de Clarice Lispector (in Água Viva): "Que o Deus me ajude: estou perdida. Preciso terrivelmente de você."

Mas é tudo engano. E continuo resistindo, ainda que dolorosamente. O motivo: acostumei-me demais à sombra da minha solidão; agora presença humana não é mais suficiente para mim. O vazio ainda continuaria intacto. O silêncio. A lonjura de pensamentos. A minha amargura de alma.

Clebson Moura Leal 

Como eu quero a minha vida


     Daqui a muito tempo, quero estar morando em uma casa decorada por mim mesmo (não gosto de decorações impessoais), com uma janela que dê para um campo imenso de flores amarelas. Que eu mesmo lave e estenda as roupas no varal, e cozinhe para visitas que virão de tempos em tempos. Quero ter um gato que durma na biblioteca, sobre os livros.


     Espero ter alguns livros publicados. E conseguir viver de literatura, porque não sei fazer outra coisa no mundo. Para qualquer que seja a tarefa, sou imperfeito e inútil. Ainda bem que encontrei a vertente que sustenta e justifica toda a minha existência: escrever. O que é uma doação muito árdua, é uma exposição desumana, um trabalho exaustivo. Mas, quando termino algo que escrevo e o leio, é a minha maior felicidade. Não há nada que se compare. 


     Quero estar só, sem ninguém. Assim como nas minhas melhores memórias da infância: fui uma criança que construiu mundos para esquecer-se do quanto era sozinha e esquecida. Sou tão feliz longe dos outros, dos enganos das palavras, das explicações exacerbadas, da sede por destinos maiores. 


     A minha felicidade é tão simples. Entre tudo que já foi dito, caminhar falando sozinho, deitar-me sob a sombra das árvores, descansar os pés dentro de um rio calmo e limpo. E cantar, cantar para mim mesmo. Longe de tudo, longe, longe - como quem esquece de si mesmo em um tempo antigo da lembrança.



Clebson Moura Leal

Exercício

Cecília Meireles
Ciência, amor, sabedoria,
tudo jaz muito longe, sempre
- imensamente fora do nosso alcance.

Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
já se podem vencer abismos
- cai-se, porém, logo de bruços e de         
[olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.

Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram
no espelho do silêncio refletidos,
nesse longo exercício de alma.

[Sin titulo]

De donde eres? - De la noche.
¿Y tu palabras? - De la obscuridad.
¿Y tu rostro? - El silencio inmenso, solamente...

Te busqué en tierras lejanas, pueblos, viejos caminos -
como la sombra de la muerte,
sufriendo por ti,
y olvidandome.

Ahora una lágrima puede decir que no te encontré.


Clebson Moura Leal

Do amoroso esquecimento


Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Mario Quintana

A leveza da música


Musica chamada "Shima uta" (em tradução livre "Ilha da Canção", da banda The Bloom), interpretada pela cantora japonesa Rimi Natsukawa.

Humildade

Cora Coralina

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.

Onde eu gostaria de estar?

  
  Longe, muito longe: onde ninguém soubesse o meu nome, nem que houvesse sombra do meu passado. Sufocam-me as minhas roupas, limita-me o meu corpo, a vida é demasiadamente desconfortável. "Hoje eu queria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, para as nuvens..." (Cecília Meireles in Escolha o seu sonho). Quero morar num lugar em que as ruas sejam repletas de flores, e que os pardais cantem por entre os ramos caídos por sobre os muros velhos. Que as casas sejam amplas e antigas, e que em alguma delas, uma moradora toque piano para tarde que morrerá delicadamente. E que seja frio, muito frio, para que eu use casacos e cachecóis macios. Que as folhas caiam pelas calçadas de pedra, e os jardins recolham cada passo dado e cada memória perdida em silenciosas contemplações.
     E lá, certamente, as horas passarão vagarosas - ou nem isso. Um minuto seria uma eternidade impossível ao destino humano e à força que condiz com a coragem por rumos insignes. Ah, talvez nem exista este lugar. Ou talvez onde imagino que a felicidade esteja: nunca perto, nunca diante de mim; sempre distante, além dos oceanos possíveis, para onde náufragos como eu se aventuram - e nunca chegam.

Clebson Moura Leal

Primeiro encontro





Ainda que inocência haja em meus olhos quando miro a essencialidade da vida, deixei de acreditar um pouco nas antigas ilusões do passado. Talvez a vida tenha ficado vazia demais, e até mesmo as esperanças desbotaram, perderam a alacridade, estão secas. Antigamente, quando meu pensamento ocupava-se em tecer quimeras impossíveis, sonhava em andar de mãos dadas por campos floridos. Sim, e com o vento forte, despenteando os cabelos, levando cada palavra de amor até a eternidade. E assistir ao pôr-do-sol juntos, conversando coisas infantis, rindo à toa, felizes apenas por estarem juntos. Ah, mas os meus sonhos foram feitos para morrerem dentro de mim. 


Clebson Moura Leal

As lições da vida


Não devemos querer saber demais, para que nosso aprendizado não seja árduo, e as respostas não fiquem como chaves que não abrem nenhuma porta. Já perguntei demais, quis ver demais, ouvir demais - agora não quero tanto como antes. Prefiro não saber, quero a minha mente e meu corpo sem mácula. Tantas perguntas se emudecem com o tempo, admoestadas pela boca que perguntava e se magoava com a própria desilusão do mundo. Ah, fui longe demais - tanto que me feri em querer conhecer, em querer sentir a vida em uma plenitude inútil. Agora não sei ainda com estou: talvez triste, talvez conformado. Apenas sei que a minha voz emudeceu na minha boca tão amarga; já não chama, já não indaga, já não deseja nada - apenas resiste à sua inerente brevidade.
Clebson Moura Leal

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.


Cecília Meireles

Considerações

     Ah, quero ouvir música clássica, enquanto as tempestades corrompem como mundo. Quero a ternura e tristeza de Chopin; o sofrimento árduo de Bach; a brandura e delicadeza de Mozart; o rigor intermitente de Beethoven; a doçura e libertação de Tchaikovsky; a harmonia de Hendel; a pronfundidade de Listz; a compassividade de Ravel. Quero piano, violoncelo, violino... 

     A imensidão da música erudita entrelaça a alma. Ah, ouvir a sua doçura, puramente, sem pensar em nada. Sem ter que voltar aos trabalhos humanos. Liberdade... - a morte deve ser uma enorme ventania que nos deixa livres de tudo. Um perfume no vento. Uma flor sendo levada dos cabelos. Talvez seja melhor que a vida. Sim. E nós a tememos puramente porque nos é desconhecida. 

Clebson Moura Leal

Não digo mais o teu nome

Nicole Kidman em "Dogville" (2003), de Lars von Trier. 


Não digo mais o teu nome, porque ele é apenas mera lembrança remota. E dói pronunciá-lo - dói tanto que preciso fechar os meus olhos para suportar a tua ausência. Então, calo-me; tudo está perdido para sempre. Não, não digo mais o teu nome. Mas o silêncio dos meus lábios guarda todas as palavras de amor que não foram ditas. E que jamais serão.


Clebson Moura Leal

A leveza da música

Ária da ópera "Rinaldo", composta por Georg Friedrich Händel. 
Interpretação: Margaret Windler


Letra: 
Lascia ch'io pianga mia cruda sorte
E che sospiri la liberta


E che sospiri
E che sospiri la liberta

Lascia ch'io pianga mia cruda sorte
E che sospiri la liberta

Il duolo infranga queste ritorte
De miei martiri sol per pieta
De miei martiri sol per pieta

Lascia ch'io pianga mia cruda sorte
E che sospiri la liberta


Pedaços de mim

Caio Fernando Abreu




"Fiquei tão só, aos poucos. Fui afastando essas gentes assim menores, e não ficaram muitas outras. Às vezes, nos fins de semana principalmente, tiro o fone do gancho e escuto, para ver se não foi cortado. Não foi."



Clarice Lispector




              "Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

Despedida


Eu falei de ti ao vento enorme,
e ele tentou levar a palavra:
mas tu não tinhas o ouvido,
e o mundo não te encontrava...

Então minha esperança morreu
sem ter mais nenhum sentido.
O claro vento não voltou mais:
perdera todo e qualquer motivo.

Porque estavas além do mundo,
do vento, da vida, dos braços meus...
Vais para o longe, entre a sombra.

E apenas te posso dizer adeus.


Clebson Moura Leal

Cecília Meireles

Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre - insegura - segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?

Fevereiro, 1955
(in Cecília Meireles, Melhores Poemas: 2002. Editora Global).

Alejandra Pizarnik


Alejandra Pizarnik (1936 - 1972), escritora e poeta argentina. 

A leveza da música

                      Johann Sebastian Bach - Arioso (piano and cello). 


Expiação



A tua memória nasce como a água,
e corre pela pedra monótona da vida.
Apenas as folhas que te tocam não sabem:
és tu distância longa, sem medida.

E tudo que vai por ti, não tem destino.
Apenas bruma beijar-te-á, minha criança.
E tudo que te ama, conhece do teu fado...

(Só eu que ainda te tenho na esperança).


Clebson Moura Leal 

Poema antigo


piedade

Ah, tive tanta pena de mim:
não fui de nuvem, não fui de estrela,
não fui de mar nem fui de areia,
‑ fui apenas de grande tristeza.

Vi meus sonhos naufragarem, 
meus navios serem combatidos, 
os sonhos morrerem com as ondas, 
meu rosto tornar-se desconhecido.
Depois, meu corpo restou na praia, 
e tudo, tudo foi tempo perdido...


       Clebson Moura Leal

Fragmento de uma crônica inacabada


Ah, os dias chuvosos em que saio para comprar livros, com um macio cachecol de lã, e caminho pelas ruas molhadas... E os ventos ameaçam vergar meu guarda-chuva velho - o qual seguro com a mão que não está aquecida dentro do bolso. E há um silêncio maior, e uma sensação de visão sépia e esquecimento. Os passos vão-se perdendo por ruas vazias, o frio avermelha o rosto, o pensamento é formulado de palavras perdidas. Alguns transeuntes passam, encolhidos em seus casacos, respirando a frieza do ar: mas a solidão humana é algo sem limites.

Sentar-se no trem sem saber para onde ele vai... E conversar com desconhecidos, perguntar-lhes sobre viagens, sonhos, acontecimentos, recordações – mas sem se importar com nomes, pois não convêm que o seja proferido: aflige como o nosso destino, é amargo aos lábios, visto que, ao recordá-lo, é possível reviver a memória do rosto enfim esquecido. E isso é tão triste quanto doloroso.

Os dias chuvosos são feitos para o silêncio, para recordar tempos antigos, para chorar ausências que o tempo não soube levar.   



Clebson Moura Leal 

Suavidade


Trago do vento todas as tuas palavras.
Pois então, minha tristeza se principia:
ah, esses sons de tempos sem horas e datas....

E novamente, ao ouvi-las, exatas e plenas,
não houve como conter a tristeza que havia,
‑  relembrando antigas lágrimas, apenas.

A voz, como a tua vida e a tua lembrança,
é efêmera forma suave que se acabaria...

E não hei de fazer nada – minha mão não te alcança!

Tudo que tenho é o que te darei: a herança
de um longo adeus esquecido na ventania.


Clebson Moura Leal