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Como eu quero a minha vida


     Daqui a muito tempo, quero estar morando em uma casa decorada por mim mesmo (não gosto de decorações impessoais), com uma janela que dê para um campo imenso de flores amarelas. Que eu mesmo lave e estenda as roupas no varal, e cozinhe para visitas que virão de tempos em tempos. Quero ter um gato que durma na biblioteca, sobre os livros.


     Espero ter alguns livros publicados. E conseguir viver de literatura, porque não sei fazer outra coisa no mundo. Para qualquer que seja a tarefa, sou imperfeito e inútil. Ainda bem que encontrei a vertente que sustenta e justifica toda a minha existência: escrever. O que é uma doação muito árdua, é uma exposição desumana, um trabalho exaustivo. Mas, quando termino algo que escrevo e o leio, é a minha maior felicidade. Não há nada que se compare. 


     Quero estar só, sem ninguém. Assim como nas minhas melhores memórias da infância: fui uma criança que construiu mundos para esquecer-se do quanto era sozinha e esquecida. Sou tão feliz longe dos outros, dos enganos das palavras, das explicações exacerbadas, da sede por destinos maiores. 


     A minha felicidade é tão simples. Entre tudo que já foi dito, caminhar falando sozinho, deitar-me sob a sombra das árvores, descansar os pés dentro de um rio calmo e limpo. E cantar, cantar para mim mesmo. Longe de tudo, longe, longe - como quem esquece de si mesmo em um tempo antigo da lembrança.



Clebson Moura Leal

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