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Fragmento de uma crônica inacabada


Ah, os dias chuvosos em que saio para comprar livros, com um macio cachecol de lã, e caminho pelas ruas molhadas... E os ventos ameaçam vergar meu guarda-chuva velho - o qual seguro com a mão que não está aquecida dentro do bolso. E há um silêncio maior, e uma sensação de visão sépia e esquecimento. Os passos vão-se perdendo por ruas vazias, o frio avermelha o rosto, o pensamento é formulado de palavras perdidas. Alguns transeuntes passam, encolhidos em seus casacos, respirando a frieza do ar: mas a solidão humana é algo sem limites.

Sentar-se no trem sem saber para onde ele vai... E conversar com desconhecidos, perguntar-lhes sobre viagens, sonhos, acontecimentos, recordações – mas sem se importar com nomes, pois não convêm que o seja proferido: aflige como o nosso destino, é amargo aos lábios, visto que, ao recordá-lo, é possível reviver a memória do rosto enfim esquecido. E isso é tão triste quanto doloroso.

Os dias chuvosos são feitos para o silêncio, para recordar tempos antigos, para chorar ausências que o tempo não soube levar.   



Clebson Moura Leal 

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