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Onde eu gostaria de estar?

  
  Longe, muito longe: onde ninguém soubesse o meu nome, nem que houvesse sombra do meu passado. Sufocam-me as minhas roupas, limita-me o meu corpo, a vida é demasiadamente desconfortável. "Hoje eu queria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, para as nuvens..." (Cecília Meireles in Escolha o seu sonho). Quero morar num lugar em que as ruas sejam repletas de flores, e que os pardais cantem por entre os ramos caídos por sobre os muros velhos. Que as casas sejam amplas e antigas, e que em alguma delas, uma moradora toque piano para tarde que morrerá delicadamente. E que seja frio, muito frio, para que eu use casacos e cachecóis macios. Que as folhas caiam pelas calçadas de pedra, e os jardins recolham cada passo dado e cada memória perdida em silenciosas contemplações.
     E lá, certamente, as horas passarão vagarosas - ou nem isso. Um minuto seria uma eternidade impossível ao destino humano e à força que condiz com a coragem por rumos insignes. Ah, talvez nem exista este lugar. Ou talvez onde imagino que a felicidade esteja: nunca perto, nunca diante de mim; sempre distante, além dos oceanos possíveis, para onde náufragos como eu se aventuram - e nunca chegam.

Clebson Moura Leal

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