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A leveza da música



A delicadíssima e perfeita "Tristesse", de Frédéric François Chopin, ao piano.  


Quem me dera


Eu bem que poderia chorar agora,
vendo como as esperanças despedaçaram-se
junto à noite e sua impetuosa sombra:
mas meus olhos estão secos e vazios
pelo tempo, que a tudo consome.

Ah, chorar doce e delicadamente por ti...
como se te esperasse e soubesse que nunca mais regressarias.




Clebson Moura Leal 
(1990 - )

A ninguém mais

     
 
     Esperei-te até que as eternidades, todas, findaram-se - e fui perdendo tudo ao meu redor com o passar do tempo. Fugia dos espelhos para que não dissessem o que me havia tornado: uma sombra sem nome e rosto, caminhando por cômodos vazios, entre silêncio e treva dividido.
     Soube com o vento do teu regresso, posteriormente. Então fui para te encontrar como as tempestades se aproximam e despedaçam tudo com a força da morte: mas, comigo, era eu quem estava sendo despedaçado. Porém, quando percebi, estava ante a teu rosto, para dizer que te amava. Mas não reconhecias mais o meu: e meus olhos se fecharam tristemente, guardando a lágrima de uma vida completamente perdida.

Clebson Moura Leal, 30 de março de 2011.

Soneto de Véspera





Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando 
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei 
Para esquecer o que vivi lembrando 
E que farei da antiga mágoa quando 
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa 
Que a distância criou - fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena 
E que quisera nunca mais perdida...


Vinicius de Moraes

A casa do tempo perdido



Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.


Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.







Carlos Drummond de Andrade 
(in Farewell, 1996)

Uma anotação antiga














"Eu queria poder chorar pelo resto da vida, pois somente chorando interrompo-a numa pausa silenciosa, e consigo debruçar a minha tristeza ao rosto - fazendo com que o vento passe, que a chuva cesse, que a noite termine em sono. Sim, os meus dias foram insistentemente chorados, mas a vida - ah, a vida! - não perdera em nenhuma lágrima a própria dor."


Clebson Moura Leal, em papeis guardados

Pequeno poema triste


Antes, contente, cantava o tempo
em que estiveste ao meu alcance,
e minha voz não era sofrimento

sobre uma vida de desengano;
não só a tristeza de ter ciência
da fragilidade do sopro humano.

Vinha eu impetuosamente brando
apenas querendo encontrar-te,
ainda que nem soubesse quando...

Por onde passava, flores deixava
nas soleiras das portas antigas
como sinal que tudo se acabara.

E também a minha vida
- triste lágrima inútil
pelo que nunca deixou de ser ruína.


Clebson Moura Leal

Ah, mas o tempo...


     Reparo, em alguns momentos, as minhas mãos. Ah, já estão envelhecendo levemente, aos poucos estão deteriorando-se como uma folha que se desprende e cai no chão, tímida e dócil. Já obtiveram a força das tempestades - mas agora são meramente a sombra do meu cansaço. Não mais desejam ao que pudesssem segurar-se. São doloramente solitárias, frias, esquecidas. Porque o amor foi guardado para sempre, em gavetas fechadas. E ninguém mais voltará ao início dos acontecimentos para retomá-lo (todos nós estamos exaustos por amar em vão, terrivelmente pisados pela vida). E o tempo está deteriorando tudo, tudo, tudo. As minhas mãos possuem o indício de sua passagem. Não há lágrima, nem grito, nem súplica. Somente uma aceitação triste. Um olhar vagamente perdido sobre o que não existe mais.


Clebson Moura Leal

A leveza da música


O famoso "Bolero de Ravel" (composta pelo francês Joseph-Maurice Ravel), sob a regência do grande maestro Andre Rieu.

Del amor desesperado

La noche no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré,
aunque um sol de alacranes me coma la cien.

Pero tú vendrás
com la lengua quemada por la lluvia de sal.

El día no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
entregando a los sapos mi mordido clavel.

Pero tú vendrás
por las turbias cloacas de la oscuridade.

Ni la noche ni el día quieren venir
para que por ti muera
y tú mueras por mí.

Frederico Garcia Lorca, Diván del Tamarit


Das pedras




Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...

Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

Cora Coralina


La guerra florida

Junto a la ventana está tu rostro,
la tierra firme de tus ojos.
Me acerco y toco tu mano, tus rodillas,
paso mi mano por tu pelo.

Yo te conozco. Me pasaré la vida tentando el fondo
hasta que suba una imagen que se te parezca.

No duermo: acecho.
Cerco con flores y con dientes a un hombre.
¿De Dónde me llegó esta enorme sed?

Vilma Vargas Robles, poeta costarriquenha

Não te acordes



      Deito-me perto de ti, onde a sombra do sono cobre nossas pálpebras, delicadamente. E estás dormindo há tanto, tanto tempo que não ouso pronunciar de leve o teu nome. Pelo contrário, uso a voz para embalar-te ainda mais dentro deste esmorecimento ilimitado ao qual foras destinado. Porque, mesmo que sofra a tua ausência dolorosamente a cada momento, não quero que te acordes: assim desenharás lindos sonhos;   estarás adverso aos horrores do mundo; e os homens não te machucarão como a mim machucaram. Não te acordes, meu amor: ah, sei que me abandonarias, acaso os teus olhos se abrissem novamente.  


Clebson Moura Leal

Adeuses




     Primeiro abrimos as distâncias com ambas as mãos; depois seguimos por mares impossíveis. E perdemo-nos quando as tempestades destruíram nossas velas frágeis, insuficiente para tão longas viagens. E já então não cumpríamos mútuas promessas de regresso. Fomos afogados em silêncios opostos, todas as palavras ficavam impossíveis diante da imensidão do horizonte. Deixamos os sonhos afundarem. Não atiramos às águas garrafas com cartas escritas: nunca houve  coragem para pedir socorro.  Simplesmente tínhamos aceitado o destino, tristemente - e nosso destino era nunca mais.


Clebson Moura Leal 

Mario Quintana




Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores.
Qualquer coisa de anjo que perdeu as asas...


(In Velório sem defunto, 1990)

Deixei de ouvir-te

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.



Maria do Rosário Pedreiras

À espera do amado

Disse-me baixinho:
— Meu amor, olha-me nos olhos.
Ralhei-lhe, duramente, e disse-lhe:
— Vai-te embora.
Mas ele não foi.
Chegou ao pé de mim e agarrou-me as mãos...
Eu disse-lhe:
— Deixa-me.
Mas ele não deixou.

Encostou a cara ao meu ouvido.
Afastei-me um pouco,
fiquei a olhá-lo e disse-lhe:
— Não tens vergonha? Nem se moveu.
Os seus lábios roçaram a minha face.
Estremeci e disse-lhe:
— Como te atreves?
Mas ele não se envergonhou.

Prendeu-me uma flor no cabelo.
Eu disse-lhe:
— É inútil.
Mas ele não fez caso.
Tirou-me a grinalda do pescoço
e abalou.
Continuo a chorar,
e pergunto ao meu coração:
Porque é que ele não volta?


Rabindranath Tagore*, in "O Coração da Primavera"


*mais poemas do poeta hindu em:
http://citador.pt/poemas.php?poemas=Rabindranath_Tagore&op=7&author=629

Dá-me a tua mão


  










Ah, mas se eu tivesse a tua mão agora, para segurá-la - talvez houvesse qualquer esperança para a minha vida; talvez não haveria tal vazio dentro de mim, bradando intermináveis horas. Mas há distâncias impossíveis entre nosso encontro: se nem minha voz chamando-te é o suficiente, quanto mais os meus dedos em te alcançar? Desde que te perdi, minha existência tornou-se algo sem significado, uma penumbra silenciosa, uma condição de ímpeto e desespero contidos. Sou menos que uma palavra escrita na areia, uma canção perdida no vento, uma angústia que se despedaça e acaba. 

     E tudo isso porque não tenho a tua mão para segurar, neste momento. E nem teus lábios, a tua voz, o perfume dos teus cabelos, a doçura dos teus gestos... Não tenho quase nada de ti: apenas esta minha memória que ecoa em muros antigos, tão leve quanto uma pétala - e mesmo assim os meus olhos não a podem suportar: deixam-na cair, docemente inconsoláveis. E será assim, até que os tempos se findem, e minhas pálpebras cansem de chorar a tua lembrança, tão mais vazia do que fora a minha vida. 


Clebson Moura Leal

De todos os vazios...



De todos os vazios entre os tempos,
de todas as distâncias entre as filas de soldados,
das brechas do tapume,
das portas que fechamos mal,
das mãos que não juntamos bem,
do vazio entre nossos corpos que não apertamos
                        um contra o outro -
nasce uma extensão vasta que se desdobra,
uma planície, um deserto,
por onde nossa alma irá sem esperança, depois da morte.


Yehuda Amikhai* 


* poeta nascido na Alemanha, e educado em Israel. 

Desencanto



Clebson Moura Leal

Hoje mesmo se viesses a mim chorando,
quão delicadamente então te abraçaria...
Mas a tua presença é frágil duna ao vento
e em minhas mãos levemente se desfaria!

E não sei agora, nunca saberei realmente, 
com qual lágrima talvez que te chamaria...

 Oh, tanto é silêncio... tanto é distância...
‑ que já não deixas memória, aonde vais.
E a minha alma, tão florida e delicada,
perde pétalas e aromas, entre longos vendavais...


Por nada, nada que haja lágrima ou voz: 
bem sei que não voltas... não mais...



Minha alma...


           Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector

Fonte: http://claricelispector.blogspot.com/


Cantiga

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.


Manuel Bandeira, Estrela da Manhã

[Perguntarão pela tua alma]



Perguntarão pela tua alma:
a alma que é ternura,
bondade,
tristeza, 
amor.
Mas tu mostrarás

a alma do teu vôo.
Livre por entre os mundos...
E eles compreenderão
que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
e mais amargo,
porque não se pode mostrar,
porque não se pode ver…



Cecília Meireles, Cânticos

A leveza da música


A espanhola Diana Navarro, cantando "Mare mía".  




Letra:
Mare mía, mare mía,
bendita seas.
Ave,
Ave, mare mía.
Mare mía, mare mía,
Caricia buena.

Ave,
Ave, cada día.
Amor de hambre,
Amor de sangre,
Un amor de madre.

Ah,
Tú me das la vida,
Tú me das la vida.

Ah,
¡Ay, amor, ay amor!
Amor de hambre,
Amor de sangre,
Amor de madre.

Ah,
Tú me das la vida...

A Redoma de Vidro

     


        "Vi minha vida se desenrolar diante de mim como uma figueira de um conto que havia lido. Da ponta de cada ramo, um gordo figo roxo acenava e me seduzia com um futuro maravilhoso. Um figo significava um marido e um lar feliz com filhos, outro era uma poetisa famosa, outro uma professora, outro era Esther Greenwood, a surpreendente editora, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro Constantin e Sócrates e Átila, um bando de amantes com nomes esquisitos e profissões originais, outro ainda era uma campeã olímpica, e acima de todos esses figos havia muitos outros que eu não conseguia entender. Vi-me sentada sob essa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual figo escolheria. Queria-os todos, e escolher um siginificava perder o resto. Incapaz de me decidir, os figos começavam a murchar e apodrecer, e um a um caiam no chão a meus pés."


Sylvia Plath (trecho retirado de "A Redoma de Vidro").



Separação



Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.


Anna Akhmátova

Então eu te perdi




     Sei  que é noite há muito tempo; que a vigília cansa mais que as longas desgraças e os grandes trabalhos; que os olhos se fecham facilmente; que a alma é por natureza fugitiva como os perfumes e os sons. 
    Por isso não te digo: "Devias ter ficado de olhos abertos até que eu viesse." Pergunto apenas: "Por que foi que eu cheguei quando os seus olhos já estavam fechados?" 


Cecília Meireles (fragmento da crônica "Coisas que vêm na sorte", do livro Episódio Humano).





A leveza da música



A suave doçura do Concerto nº 21 (piano), de Wolfgang Amadeus Mozart .


Não me deixes




- Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que te tirarei ainda vivo daqui - nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me, faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse.


Clarice Lispector (in A Paixão Segundo G.H.)


O fim de tudo


"[...] Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta do correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma."

Machado de Assis (in Memórias Póstumas de Brás Cubas) 

São horas de voltar





São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto


à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão
em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.



Maria do Rosário Pedreiras

Desistencia

    No me mires porque no puedo ver tus ojos.
    Estoy cegado por la última distancia que tanto me consome...

    En tu ausencia, de repente, la noche rompió las palabras.
    Así que no podía llamar tu nombre, irreconocible,
    mucho menos cantar, para que el tiempo muera dentro de mí.

    Ahora mis manos son solamente la memoria del vacío.
    Y para no te perder de nuevo -  ruego no vuelvas.


Clebson Moura Leal

O Último Poema



Assim eu queria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Manuel Bandeira

A leveza da música







A doce voz de Regina Spektor, cantora e pianista russa, na canção "Us" - que de tão lindo arranjo, dá a sensação de libertação.

A verdadeira culpa



     "Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa."


Caio Fernando Abreu


Fonte: http://caio-fernando-abreu.blogspot.com/

Água Viva







     Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago. Só que aquilo que capto em mim tem, quando está sendo agora transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. Mais que um instante, quero seu fluxo. Nova era, esta minha, e ela me anuncia para já. Tenho coragem? Por enquanto estou tendo: porque venho do sofrido longe, venho do inferno de amor mas agora estou livre de ti. Venho do longe - de uma pesada ancestralidade. Eu que venho da dor de viver. E não a quero mais.


Clarice Lispector (fragmento do livro "Água Viva")

Ausência

Carlos Drummond de Andrade




Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.