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Ah, as viagens

 
     Alegre agitação de véspera de partidas. Com crias da casa para carregar as malas. E um pai para pagar a passagem. Agora as viagens são sozinhas, anônimas, quase furtivas. E ir de um lugar para outro - olha só a grande novidade! - é o mesmo que mudares de posição um velho móvel no quarto de sempre...



Mario Quintana, A Vaca e o Hipogrifo 

A Anunciação

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci. 
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim... 


Vinicius de Moraes, Para Viver um Grande Amor

Bilhete



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Canção do Amor-Perfeito


O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras,
deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas,
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.


Cecília Meireles

The Munich Mannequins

Perfection is terrible, it cannot have children.
Cold as snow breath, it tamps the womb

Where the yew trees blow like hydras,
The tree of life and the tree of life

Unloosing their moons, month after month, to no purpose.
The blood flood is the flood of love,

The absolute sacrifice.
It means: no more idols but me,

Me and you.
So, in their sulfur loveliness, in their smiles

These mannequins lean tonight
In Munich, morgue between Paris and Rome,

Naked and bald in their furs,
Orange lollies on silver sticks,

Intolerable, without mind.
The snow drops its pieces of darkness,

Nobody's about. In the hotels
Hands will be opening doors and setting

Down shoes for a polish of carbon
Into which broad toes will go tomorrow.

O the domesticity of these windows,
The baby lace, the green-leaved confectionery,

 The thick Germans slumbering in their bottomless Stolz.
And the black phones on hooks

Glittering
Glittering and digesting


Voicelessness. The snow has no voice.


(1932 - 1963)


Sylvia Plath


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Os Manequins de Munique

A perfeição é terrível, não gera filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos sopram como serpentes,
A árvore da vida e a árvore da vida

Desprendendo as suas luas, mês atrás de mês, sem nenhum propósito.
O jacto do sangue é o jacto do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, excepto eu

Eu e tu.
Assim, com a sua graça sulfúrica, nos seus sorrisos

Esses manequins se encostam esta noite
Em Munique, morgue entre Roma e Paris,

Nus e carecas vestidos com os seus casacos de pele,
Chupas-chupas de laranja com pau de prata

Intoleráveis, sem cabeça.
A neve deixa cair os seus pedaços de escuridão.

Ninguém perto. Nos hotéis
As mãos abrirão portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão que engraxa
Com os seus dedos largos entrando amanhã.

Ah, a domesticidade dessas janelas,
As roupas de bebé, a confecção de folhas verdes,

Os espessos alemães dormindo com o seu desprezo inacabável.
E telefones pretos nos ganchos

Cintilando
Cintilando e digerindo


A mudez. A neve não tem voz.

(tradução de Pedro Calouste)

A leveza da música




"Un Piano Sur La Mer", por André Gagnon

Inutilidades minhas




"Vivo entregando todo o meu amor nas mãos de pessoas que ao menos me dariam um sorriso."

Clebson Moura Leal

Desconsolo











Sei que teus olhos já se fecharam, que é tarde demais para qualquer outra tentativa, que minhas palavras foram perdidas pelas areias: mas só não sei como poderia dizer tudo isso a mim. Nada dói tanto quanto "nunca mais". Por isso procuro outros nomes para pronunciar, guardando o que fora dito nas despedidas como lembranças que não sufocassem. Mas tudo é inútil, tudo, tudo, tudo: porque não importa em que tempo, em quantas vidas minha alma ressurja, em quantas lágrimas meus olhos se desfizerem - jamais te verei novamente. E saber que estás longe, sem poder beijar os teus lábios, é o mesmo que sobreviver infinitas vezes apenas para continuar morrendo. 


Clebson Moura Leal

O que verdadeiramente sou

Gabriela Mistral


"Soy una alma desnuda en estos versos,
alma desnuda que angustiada y sola
va dejando sus pétalos dispersos."


"Sou uma alma nua nestes versos,
alma nua que angustiada e sozinha
vai deixando suas pétalas dispersas."


Tradução: Clebson Moura Leal


A leveza da música







A suave barcarola "Au lac de Wallenstadt", de Franz Liszt (1811 - 1886)

Delicadeza



               Ah! como eu queria ir empurrando
               a tua lágrima
              - com a boca delicada -
              para que quando ela morresse eu conseguisse


              encontrar os teus lábios...



Clebson Moura Leal, anotação em uma agenda




Ninguém me venha dar vida


Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis.

Cecília Meireles

Dolor

Ahogarme bajo tu sombra vieja,
y muy distante, mis manos dentro de la noche:
muriéndose tristemente vacías.

Y una lágrima podría perdurar la eternidad,
combatiendo el viento, la muerte, las enfermedades de mi vida.

Apago mis sueños todos, dolorosamente despedazados;
las dudas desaparecen porque las respuestas no existem.

Sé que no regresarás...
- todavía insisto en decir tu nombre,
última palabra que no pude olvidar

por las tempestades que fuí....



Clebson Moura Leal