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Las puertas

...Un cerrarse de puertas,
a derecha e izquierda;
un cerrarse de puertas silenciosas,
siempre a destiempo,
siempre un poco antes
o un momento demasiado tarde;
hasta que solo queda abierta una,
la única puntual,
la única oscura,
la única sin paisaje y sin mirada.

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As portas


...Um fechar-se de portas, 
à direita e esquerda;
um fechar-se de portas silenciosas,
sempre fora do tempo, 
sempre um pouco antes, 
ou um momento demasiado tarde;
até que apenas permanece aberta uma, 
a única pontual, 
a única obscura, 
a única sem paisagem e sem olhar. 
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The doors


... A close doors, 
right and left;
a close door silent,
always out of time, 
always a little earlier, 
or a moment too late;
until only one remains open, 
the only punctual, 
the only obscure, 
only without the landscape and without looking.


Josefina Plá, poeta paraguaia 
Tradução: Clebson Moura Leal

Elegia íntima




Minha mãe chorando no fundo da noite

rachou o silêncio do quarto adormecido.
Meu pai olhava o escuro e não dizia nada.
Um relógio preto gotejava barulho.

Lá fora o vento lambia as espáduas do céu.

Minha mãe chorando no fundo da noite
                                                         apunhalou o sono de Deus.



Ivan Junqueira, 
Poemas Reunidos

A leveza da música



"A Morte do Cisne", interpretada pela belíssima Ghislaine Thesmar, faz parte da peça escrita por Camille Saint-Saëns (Le Carnaval des Animaux - O Carnaval dos Animais) datada de 1886 - e faz alusão aos últimos momentos agonizantes antes da morte.

Cantiga que todos cantarão

Clebson Moura Leal copyright © 2011 - ALL THE RIGHTS RESERVED

Chover não choveu. Nem as ondas podiam ter vindo até dentro das minhas mãos: só se os meus olhos choraram.

Mas então estive aqui muito tempo, e passaram-se em mim grandes acontecimentos, tristes e inevitáveis guerras...

Parece que estive desejando alguma coisa longamente... O quê? E estou desejando ainda... - um pouco de sol sobre minha vida, qualquer coisa luminosa, qualquer coisa... Ai de mim.

Não sei mais.

Cecília Meireles, in Episódio Humano

Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Meu destino



Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...


Cora Coralina

A leveza da música


"Ombra ma fui" é uma ária da ópera de Haendel chamada "Xerxes", interpretada por Cecilia Bartoli (essa versão é proveniente de seu albúm Sacrificium).

Pardalzinho







O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!



Manuel Banderia

Não partas já

"The Piano", 1993, escrito e dirigido por Jane Campion

Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas

quando a manhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.

E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.


Maria do Rosário Pedreiras

Arte Poética

Nada es más claro para mí
Que el misterio de la muerte
Ni nada más oscuro
Que la luz misma del sol
La sombra brota de mi pluma
Y alcanza el cielo entero
Dama de traje infinito
Baila a solas con la luz
Siempre detrás de las cosas
Siempre a la espalda de todo
Con su gran cola vacía
Y su llamarada
Semejante a este poema
Que apenas logro escribir
Y ya no es nada.

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Tradução: Clebson Moura Leal
Nada é mais claro para mim
Que o mistério da morte
Nem nada mais obscuro
Que a luz própria do sol
Uma sombra nasce de minha pena
E alcança o céu inteiro
Dama de traje infinito
Dança sozinha com a luz
Sempre detrás das coisas
Sempre às costas de tudo
Com sua grande fila vazia
E seu apagamento
Semelhante a este poema
Que apenas minto escrever
E que não é nada.


Jorge Eduardo Eielson, poeta peruano

A leveza da música



"Canon em D maior" do compositor alemão, de estilo barroco, Johann Pachelbel.


Espera





E se vieres tarde no tempo,
tarde para que minha boca
cante aos teus ouvidos o vento?

E se chegares dentre o silêncio,
com as minhas pupilas mortas
sobre uma sombra que não venço?

E se trouxeres outras esperanças
para que cessem as lágrimas,
sendo que nada mais se alcança?

Mas não chegas, não regressas:
então tudo permanece despedaçado,
como que abandonado às pressas,
e uma triste e vaga penumbra
cala todas as promessas.


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And if you come later in time,
late for my mouth
sing the wind in your ears?

And if you get out of the silence,
with my pupils killed
on a shadow that do not win?

And if you bring other hopes
to cease the tears,
that nothing is being achieved?

But you don't come, you don't return:
then everything is still broken,
as if hastily abandoned,
and a sad and vague penumbra
shut all the promises.


Clebson Moura Leal