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Pausa



"Não sei se quero descansar por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir."

Clarice Lispector

A minha solidão




"Eu comecei a enumerai nos dedos quem poderia sentir a minha falta: sobraram dedos. Todos estes que estou olhando agora." 




Caio Fernando Abreu, Os Dragões Não Conhecem o Paraíso 

Oração

Clebson Moura Leal copyright © 2011 - ALL THE RIGHTS RESERVED


            Deus meu eu vos espero, deus, vinde a mim, deus, brotai no meu peito, eu não sou nada, e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas, e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura, deus, vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e deus, porque não existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti? deus, vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece, me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco, e o que me resta para viver, no entanto, continuará intocado e inútil, porque não te apiedas de mim, que não sou nada? dai-me o que preciso, deus, dai-me o que preciso, e que não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, e a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo por vós, e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós...





Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem

Tristeza



Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza, 
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes de meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrimas de olho escondido. 


(Ali, no canto apagado da sala, 
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)


E o resto é mesmo tristeza. 


Ivan Junqueira, Poemas Reunidos