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"Querido diário,



... hoje alguma coisa está doendo tanto em mim. Sinto a falta de uma pessoa que gostaria que estivesse do meu lado para sempre. E não tenho coragem de dizer, porque sei que isso de nada adiantaria. Algo está errado comigo, estou sentindo tantas saudades dentro de mim. E sei que tudo é impossível, oh, não sei mais o que fazer comigo. Sou imprestável, não tenho serventia, sou um objeto quebrado. Quem poderia amar alguém assim? Ninguém. Há horas vazias em que a ausência é tão amarga e infinita! Não quero mais o que sou: quero que me levem para longe e para sempre. Tenho vergonha do que me tornei. E, se pudesse conseguir tudo no mundo, a única coisa que pediria seria para ser amado. Ou então, para que o esquecimento pudesse libertar-me. Estou tão exausto, tão fadigado! Gostaria de dormir e não acordar mais: meu coração não consegue suportar o sofrimento de amar."






Clebson Moura Leal

Como explicaria a minha vida?




...um pouco vazia, dolorosa, amarga, árdua. Mas também, em alguns momentos, leve, aérea, delicada, tão repleta de sonhos e esperanças! Não gostaria de ter outra vida, ou ser outra pessoa - apenas gostaria de ser um pouco melhor. Porque estou condenado a ser apenas isto: errado, incompleto, sofrido; de uma humildade pisada, uma inocência saudosa, uma dureza incomum. Ah, possuo uma solidão sobrehumana, algo desconhecido, que resume a minha existência. Mas, às vezes, dói. Outras, liberta. E quase sempre não sei o que fazer de mim -  estrangeiro no mundo, perdido nas tempestades, pelas multidões sufocado.



Clebson Moura Leal

A leveza da música


"Opus 28", do pianista contemporâneo americano Dustin O'Halloran. 

Aninha e suas pedras

Tradução: Clebson Moura Leal
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

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Aninha y sus piedras

No te dejes destruir...
Juntando nuevas piedras.
y contruyendo nuevos poemas.
Recrea tu vida, siempre, siempre.
Remueve tu vida y planta rosales y has dulces. Recomienza.
Has de tu vida mesquina
un poema.
Y vivirás en el corazón de los jóvenes
y en la memoria de las generaciones que han de venir
Esta fuente es para el uso de todos los sedientos.
Toma tu parte.
Ven a estas páginas
y no dificultes su uso
a los que tienen sed.

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Aninha and her stones
Don't be destroyed ...
Raking new stones
and building new poems.
Recreate your life, always, always.
Remove stones and plant roses and make candies. Restart.
Do your niggard life mean
a poem.
And you will live in the hearts of young
and in memory of the generations to come.
This unit is for use by all the thirsty.
Take your part.
Come to these pages
and not use barriers
to those who thirst.

Las grandes palabras


aún no es ahora
ahora es nunca
aún no es ahora
ahora y siempre
es nunca

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As grandes palavras
ainda não é agora
agora é nunca
ainda não é agora
agora e sempre
é nunca

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The big words
still not is now
now is never
still not is now
now and always
is never 

Alejandra Pizarnik

Desnudo día


En el paisaje nuevo
En el paisaje nuevo en que estarás conmigo
reposará la tarde como una flor caída.

Nos habremos deseado
tanto, que el beso habrá muerto.

Yo lo veré en tus ojos, maduros de otra sombra.
Ojos de un valle ausente. Ojos con otra luna.

Entre los dos corazones
llorará tu voz
antigua.

...Una tarde peinada con una raya oscura.
Tú tendrás la mitad más dulce de la vida.

Las camelias de tu boca
morirán en otro tiempo.


...Y aquella tarde mía, ya no será la tuya.
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Nesta paisagem nova, 

nesta paisagem nova em que estarás comigo
repousará a tarde como uma flor caída.

Nós haveremos desejado
tanto, que o beijo estará morto.

Eu verei em teus olhos, maduros de outra sombra.
Olhos de um vale ausente. Olhos com outra lua.

Entre os dois corações
chorará tua voz
antiga.

...Uma tarde penteada com uma risca obscura.
Terás tu a metade mais doce da vida.

As camélias de tua boca
morrerão em outro tempo.


...E aquela tarde minha, já não será a tua.
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In this new landscape,
this new landscape that will be with me
rest in the afternoon as a fading flower.

We shall yearned so much,
therefore the kiss will be dead.

I'll see in your eyes, ripe for another shade.
Eyes of a valley away. Eyes with a other moon.

Between the two hearts
will cry your voice
old.

... One afternoon brushed with a dark stripe.
You have the half more sweeter of the life.

The camellias of your mouth
will die in another time.

...And that afternoon mine, don't will be yours. 




Josefina Plá
Tradução: Clebson Moura Leal

La carencia

Tradução: Clebson Moura Leal
Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.

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Eu não sei de pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

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I don't know the birds,
I don't know the history of the fire.
But I think my loneliness should have wings.



Alejandra Pizarnik, Las aventuras perdidas

Monólogo


Clebson Moura Leal copyright © 2011 - ALL THE RIGHTS RESERVED


Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? - Nunca.

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.

De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.



Cecília Meireles

Não soube dizer adeus








    Revejo-te em minha memória, nitidamente. E acabaram as lágrimas, secaram com a passagem do vento. Mas dentro de mim continua algo despedaçado, delicadamente encoberto de escuridão: a minha tristeza por não saber onde estarás, sem poder ser chorada, eternamente sufocada dentro do meu peito. E não há grito, não há coragem para enfrentar os vendavais, não há o que ser salvo.

 Nem a mim, quero salvar. Quero mesmo que as tempestades levem as minhas palavras, a minha voz, as minhas memórias, a minha vida. Entrego-me na mais dolorosa abdicação. Conheço o vento e toda a violência da morte - porém nada temo. Enquanto o mundo chega ao fim, chamo o teu nome sem esperança, rogo-te que venhas, que voltes, que regresses! Somente segurar a tua mão já seria terno o suficiente para que eu fechasse os meus olhos. Os mesmos olhos que fechei quando foste embora, apenas para não ver que levarias  então tudo de mim.
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         I can see you in my mind, clearly. And eventually the tears have dried up with the passage of wind. But something inside me is still in pieces, delicately shrouded in darkness: my sadness for not knowing where you will be, and can not be mourned, foreversmothered in my breast. And there is no cry, no courage to facethe storm, there is nothing to be saved.

        Not me, I want to save. I really want that storms take my words,my voice, my memories, my life. Give me the most painfulabdication. I know the wind and all the violence of death - but I fear nothing. As the world comes to an end, I call your namewithout hope, I pray you to come, they come back, that rules! Just hold your hand it would be tender enough that I closed my eyes. The same eyes that closed when you went away, only to see then you would take all of me.

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Clebson Moura Leal