Páginas


"Lost Song" é uma composição de Ólafur Arnalds, multi-instrumentalista nascido na Islândia. Sua overdose de melancolia mistura piano, violoncelo, violino e som ambiente. Esta música vem do álbum Found Songs.









"Um dia tu vais compreender que não existe nenhuma pessoa completamente má, nenhuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos nós somos apenas humanos. E sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí, sim, todos te virarão as costas e te acharão mau [...]"


Caio Fernando Abreu, Limite Branco

Ser feliz é difícil?



Para Thierry Pang





Às vezes, sim. Todos nós somos uma espécie de caixinha, e cada dia vão sendo colocadas pequenas lembranças. Algumas recordações ruins perduram dentro do nosso peito por anos e anos. E então, vamos entristecendo. Não podemos nos livrar, não conseguimos a benção que é o esquecimento (e posteriormente o perdão). O rancor antigo mostra-nos um passado que não passou, e tudo ecoa infinitamente na tristeza. 

Mas nós, humanos, limitamos a nós mesmos. Guardamos palavras duras enquanto os elogios são esquecidos; vivemos de chorar por aqueles que nem ao menos se importam com nossas lágrimas; alimentamos intrigas vazias, vinganças patéticas, mágoas infundadas. Poderíamos ser muito mais se pudéssemos ver o real valor da existência. Não dá para voltar atrás, os ponteiros do relógio não retrocedem, estamos envelhecendo a cada momento. E tudo que deixamos de fazer é uma triste perda de tempo, uma flor que não se deixou desabrochar para que outros conhecessem o seu perfume. 


Muitas pessoas morrem sem ter conhecido a verdadeira felicidade. E ela não requer nada fora de comum: é tão simples que a complicamos. Temos o costume de sonhar com alguém que nos complete (quando nós mesmo deveríamos ser suficientes), o emprego que pague melhor (enquanto há pessoas que não tem o que comer), uma casa maior, viagens, falar várias línguas. Aprendi há pouco tempo a ver a vida de outra maneira: a felicidade está perto de nós, dentro de nós, ao redor de nós - talvez nos espreite como uma criança que brinca de esconde-esconde.



Clebson Moura Leal

Festa


tinha estendido minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o itinerário
até meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E tinha bebido licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

_____

FIESTA

he despleado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujéel itinerario
hacia mi lugar al viento.
Los que llegan no me encuentran. 
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para transmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacíos.



Alejandra Pizarnik

No lugar de um epílogo

Anna Akhmátova, poetisa russa

E lá, onde os sonhos formavam-se
para nós dois - sonhos não muito diferentes
iam ficando guardados.
Vimos o mesmo sonho, e havia força nele,
como a chegada da primavera.



Anna Akhmátova
Tradução: Lauro Machado Coelho

Saudades de mim


Hoje mesmo estava lendo alguns livros infantis, um dos quais li quando tinha apenas onze anos. E com triste saudade recordei a mim mesmo. Ah, todas aquelas páginas com ilustrações tão bonitas, as histórias que levavam a minha imaginação longe, onde talvez a tenha deixado - porque não a encontro mais... 

Sinto que fiquei no passado. A textura do papel, o aspecto do livro, as imagens, as palavras daqueles livros não envelheceram de forma tão brusca. Mas quanto a mim, sim. Não tenho nada mais da infância, a não ser algumas lembranças que retornam inutilmente - apenas para que que eu tenha a noção da fugacidade da vida. Reler aquelas palavras que havia esquecido é tão triste quanto, de súbito, não reconhecer o próprio rosto. 

Foi como saber que tudo acabou. Faz tanto tempo que sequer saberia como me comunicar com uma criança. Esqueci o quão simples deveria ser a vida, leve, aérea, liberta. Tenho vontade de escrever o livro infantil mais lindo do mundo, mas não tenho mais a mesma imaginação de antigamente. Não consigo ser o mesmo, estou preso nesta condição que me é estranha. A qual renego com todas as forças. Contudo, nenhuma palavra é escrita. E deito-me exausto, em uma tarde ensolarada; durmo como aquele menino que não sou mais. 



Clebson Moura Leal