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Saudades de mim


Hoje mesmo estava lendo alguns livros infantis, um dos quais li quando tinha apenas onze anos. E com triste saudade recordei a mim mesmo. Ah, todas aquelas páginas com ilustrações tão bonitas, as histórias que levavam a minha imaginação longe, onde talvez a tenha deixado - porque não a encontro mais... 

Sinto que fiquei no passado. A textura do papel, o aspecto do livro, as imagens, as palavras daqueles livros não envelheceram de forma tão brusca. Mas quanto a mim, sim. Não tenho nada mais da infância, a não ser algumas lembranças que retornam inutilmente - apenas para que que eu tenha a noção da fugacidade da vida. Reler aquelas palavras que havia esquecido é tão triste quanto, de súbito, não reconhecer o próprio rosto. 

Foi como saber que tudo acabou. Faz tanto tempo que sequer saberia como me comunicar com uma criança. Esqueci o quão simples deveria ser a vida, leve, aérea, liberta. Tenho vontade de escrever o livro infantil mais lindo do mundo, mas não tenho mais a mesma imaginação de antigamente. Não consigo ser o mesmo, estou preso nesta condição que me é estranha. A qual renego com todas as forças. Contudo, nenhuma palavra é escrita. E deito-me exausto, em uma tarde ensolarada; durmo como aquele menino que não sou mais. 



Clebson Moura Leal

6 comentários:

  1. Lindo texto!
    Traduz muito bem o que sinto ultimamente também, mas acho que não tive tempo de por no papel, não tive inspiração nem imaginação para escrever...tenho vivido com isso e me dói, mas também me dói retroceder..
    Ultimamente estou sem saber o que fazer!
    Abraço!

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  2. Olá!
    Muito obrigado pelo elogio. Fico feliz que tenha gostado.

    O que de fato acontece é que relembrar o que fomos (e até mesmo o que poderíamos ter sido) é doloroso. Quando crescemos é que reconhecemos o valor da infância. Infelizmente temos que perder para saber o significado de ser criança - e é tão simples que não conseguimos mais compreender.

    Talvez devêssemos simplesmente aceitar o que somos, sem entristecer com o passado que não volta. Mas preservar a criança que existiu dentor de nós, de qualquer maneira. O que você acha?

    Um grande abraço,
    C. M. L.

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  3. Como disse Rotterdam, em "O Elogio da Loucura", na infância podemos fazer qualquer insandade, que não tem problema nenhum afinal, somos crianças...
    "Felizes são os loucos..."
    Concordo com você Clebson, não devemos nos entristecer pelo passado que não volta, devemos olhar pra ele e sorrir.. para alimentarmos a criança em nós, que nunca morreu..

    Abraços,
    Kauan F. Pierucci

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  4. Sei como é. A criatividade foi embora junto com a inocência de criança! Aconteceu o mesmo comigo. O mundo começa a virar perverso e tirar tudo aquilo que é simples e mágico. Acho que a falta de ingenuidade estragou tudo. Puxa! Enfim... Maravilhoso blog, parabéns. E ah! também prefiro dias frios.

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  5. Ei, desculpe! Caso for responder (o que me agradaria muito), é no blog Sutiãns. Os outros ficaram enterrados desde a época que eu sonhava mais.

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